2 de março de 2009

project storyboard II

Álvaro Mendes deu um suspiro e voltou a enterrar a cabeça na almofada. Há uma semana que acordava com a mesma sensação de cansaço, com a cabeça pesada e os músculos doridos. Hoje não era excepção.
Murmurou um queixume amargo, e sentou-se na cama. Precisou de um momento para passar a tontura. Ergueu-se completamente e dirigiu-se à casa-de-banho, para um duche quente.
‘Este frio mata-me’ - pensava Álvaro, enquanto se olhava ao espelho, afagando a barba com a mão direita, ponderando se era ou não dia de dar uso à gillette – ‘Não, ainda aguenta’.
Saiu dos lavados e entrou no quarto. Vestiu um fato às escuras, agarrou na carteira e nas chaves e saiu disparado de casa. Não tinha o hábito de tomar pequeno-almoço, e muito menos às quintas-feiras, dia de reunião do departamento.
Entrou no carro, ligou o rádio, e seguiu caminho, sem pensar. As suas mãos guiavam-no exactamente onde queria ir, deixando a mente vaguear distraidamente pelos meandros do seu pensamento.
‘Que dia de merda’, murmurou para si mesmo, enquanto ligava o pára-brisas e ajustava o ventilador para ar quente. A chuva atrasou-o ainda mais. Quando entrou no escritório já passava das 10h. A recepcionista brasileira olhou-o de esguelha, voltando depois a enterrar o olhar na revista feminina que estava a ler. ‘Ah, Sr. Mendes’ – disse no seu sotaque floreado, sem tirar os olhos do artigo sobre celulite – ‘o Dr. Ferreira disse que se chegasse depois das 10h, escusava de se incomodar a ir à reunião’.
-‘São 10h’ – replicou Álvaro.
- ‘São 10h10’ – disse, encarando-o finalmente – ‘Eu aviso-o quando o Dr. Ferreira sair, para lhe dar uma palavrinha, OK Sr. Mendes?’.
- ‘OK, D. Branca’ – respondeu Álvaro, com ar jocoso. Odiava a recepcionista desde o primeiro dia, e o sentimento era mútuo. ‘Porque está tão feliz?’ perguntou-se, olhando novamente para o sorrisinho da D. Branca, claramente não relacionado com o artigo sobre acne severo que estava a ler agora.
Dirigiu-se ao seu gabinete, que partilhava com dois colegas do departamento, o Aires e o Bento. Esses dois idiotas, que andaram na escola juntos, tiveram a sorte de ter entrado na empresa no tempo das vacas gordas. Bastou-lhes umas vendas bem sucedidas para serem promovidos para o Departamento Comercial, onde se deixaram estar descansados, entretendo-se a fazer piadas sobre o Fernando da contabilidade, enquanto alternavam entre ‘a Bola’ e páginas pornografia grátis, na Internet.
Álvaro reclinou-se na cadeira, com uma única certeza em mente: ia ser despedido.
Tentou pensar em todos os acontecimentos que pudessem ter conduzido àquele momento, nas últimas semanas: ‘Foi aquele cliente gordo’ – afirmou em voz baixa. ‘Não, foi ter chegado atrasado a semana toda a fio… Ou então ter posto aquele almoço como despesa de trabalho. Era um Sábado… Sou tão estúpido!’. A cabeça girava a uma velocidade alucinante. Sentia-se a desmaiar. ‘Nem penses, idiota! Vais enfrentar isto como um homem!’. Levantou-se de um pulo, e encostou-se à janela, de braços cruzados, à espera.
Passou-se mais de meia hora, até receber um telefonema da D. Branca.
Dirigiu-se então ao gabinete do director, e bateu três vezes. Cada batida fazia eco no seu coração. Embora tentasse manter a cabeça fria, os pensamentos atropelavam-se na sua mente, lutando por um momento de atenção, como actores inexperientes ansiosos pela luz da ribalta. Apenas os mais fortes sucediam, os que o recriminavam ou enchiam de terror, com cenários irrealistas do que o esperava naquela sala.
Todas estas visões foram interrompidas por uma voz masculina, de timbre seco e indecifrável: - ‘Entre’.
Álvaro passou as mãos pelos cabelos loiros, ajeitou a gravata, e entrou. Permaneceu de pé, em silêncio. Apercebeu-se de que o Dr. Ferreira estava acompanhado por outro homem. Ambos pareciam absortos, não se apercebendo da sua presença. Tossiu baixinho.
O director levantou os olhos, para inspeccionar o rapaz. Álvaro tinha cerca de trinta anos, mas aparentava bastantes menos. A sua estatura alta e ombros largos tornavam a sua presença imponente, e as feições geométricas conferiam-lhe um aspecto nobre. Os olhos azuis eram inexpressivos - característica imperdoável num comercial - e o nariz recto terminava numa barba mal aparada, do mesmo loiro que o cabelo.
-‘Ah, sim’ – disse o chefe, como se de repente se tivesse recordado de que o tinha mandado chamar – ‘sente-se, Álvaro, sente-se. Como tem passado? Tem um ar cansado. Está bem de saúde?’.
- ‘Sim, vou andando’ – respondeu com relutância, estranhando a simpatia.
- ‘Quero apresentar-lhe ao Carlos Freitas, dos Recursos Humanos’.
Álvaro recomeçou a suar. A cabeça a andava à roda. Estava demasiado ocupado a parecer normal para ouvir o que diziam.
Finalmente, um pensamento mais forte que os outros saltou para a ribalta: ‘Esqueci-me de ligar à Júlia!’.Fez-se silêncio. Álvaro ergueu a cabeça e o seu olhar cruzou-se com os dos dois homens. Aguardavam uma resposta. Mas a que pergunta?...

Sem comentários: