6 de março de 2009

Project storyboard III

‘-É o 59’ – sussurrou Júlia com voz doce, ao ouvido de um invisual andrajoso, sua única companhia na paragem da Carris, à saída da esquadra.
- ‘Obrigadinha, menina.’ – agradeceu o homem, que não pode evitar um sorriso maroto, ao sentir o sopro quente de uma voz feminina tão perto do seu corpo. Levantou-se e apeou-se no autocarro, deixando Júlia sozinha com os seus pensamentos.
Mas Júlia não tinha pensamentos. Desde a noite anterior que a sua mente permanecia imóvel, translúcida, imune à passagem do tempo e emoções, como o vidro fosco de um relógio partido.
O chiar de pneus alertou-a para a chegada do seu autocarro. Entrou sem pagar e sentou-se no único lugar que ainda tinha alguma sombra. Foi até ao final da linha, saiu no Castelo, e seguiu a pé até casa.
Júlia vivia sozinha no nº 52 da Rua da Madalena, na fronteira entre Alfama e o Castelo
Nessa parte da cidade, há um sem número de ruelas estreitas que se cruzam e entrecruzam, ladeadas de casinhas de três andares com águas furtadas.
Não obstante o ar delapidado dos edifícios, bastante maltratados pelo passar do tempo e falta de cuidados, a Rua da Madalena não aparentava abandono. Era raro o estendal em que não se via roupa lavada a ondular ao vento, roçando ocasionalmente nos vasos floridos, que as senhoras colocavam no parapeito das janelas, num constante desafio às vizinhas do lado. O aroma a flores e a roupa lavada, difundido pela brisa suave do Tejo, aliviava o cheiro dos recantos da calçada onde as crianças urinavam, de maneira que a chegada a casa era sempre um momento agradável.
A casa de Júlia, pouco maior que a mercearia do bairro, tinha um quartinho de tectos baixos, uma sala e uma cozinha. As janelas da casa, em conjunto com o telhado de lombas metálicas, expunham a habitação a uma grande amplitude térmica, de modo que em meses quentes o calor era sufocante, e no Inverno fazia grande frio, havendo mesmo infiltrações nos dias de chuva mais forte.
Com o passar dos anos, a humidade alojou-se nos pesados reposteiros de veludo vermelho, herança da anterior inquilina, empestando toda a casa de um cheiro a mofo fortíssimo, que a jovem tentava disfarçar com incenso e velas aromáticas.
A cozinha era sem dúvida a parte mais alegre da casa. As paredes, às quais a humidade roubara lascas de tinta, estavam pintadas de amarelo suave. A janela encontrava-se virada para a rua, de maneira que, durante o Verão, se sentia um sopro suave a atravessar a divisão, e ouvia-se as crianças a brincar na rua. Quando se afastavam as cortinas, propositadamente ou por acção do vento, avistava-se ao longe, entre telhados de tijolo e antenas de televisão, o azul do Tejo, e um vislumbre do Cristo, que a uma distância segura abençoa a cidade.
Em cima do móvel verde da pia estava um armário com puxadores dourados, cheio até cima com serviços de porcelana chinesa, empilhada perigosamente.
Júlia retirou uma chávena e um pires do armário, serviu-se de um chá preto, e sentou-se à mesa da sala, a folhear o antigo álbum de fotografias da família.
Parou na décima quinta página. A folha de cartolina, acinzentada pelo uso, tinha apenas uma fotografia. Era uma imagem antiga da família Morais, tirada dias após a chegada a Lisboa, em que aparecia Júlia, os seus pais e o seu irmão Jaime, no jardim da casa nova. Esta era a última fotografia de Jaime, que desapareceu pouco tempo depois.
Júlia passou o dedo pela foto, em cima da cara do irmão, e começou a soluçar baixinho. A sua mente, antes despojada de pensamentos, estava agora esmagada por eles. As lágrimas grossas rolavam-lhe pela cara abaixo, despenhando-se furiosamente contra as flores desbotadas do vestido. Finalmente, caíra no abismo de si própria.

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