2 de março de 2009

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Às 14h25 do dia 14 de Junho de 2008, Júlia Morais deu entrada na XXIII esquadra da PSP. Esperou que os seus olhos se habituassem à escuridão, e avançou até à sala de espera, onde se sentou aguardando a sua vez.
A seu lado, estava sentado um casal de meia-idade, com um ar bastante respeitável, e uma senhora já idosa, de aspecto cansado e impaciente.
O estorvo do incidente que os levou à esquadra parecia multiplicado por mil, devido ao calor infernal daquele dia de Verão, que deixava a boca seca, arenosa, com o sabor desagradável do despertar, provocando ao mesmo tempo um suor incontrolável, que colava a camisas às costas.
A ventoinha giratória, de pé alto, colocada no canto da sala, pouco ajudava à circulação do ar viciado, e o bafo que se fazia sentir na sala, totalmente virada a oeste, transformava cada minuto de espera numa eternidade.
Volvido uns momentos, a única polícia da sala, uma mulher forte, com ar enfadado, chamou ‘seguinte’ num tom alto e seco, arrastando a segunda sílaba até às últimas consequências.
O casal mais à esquerda avançou, e sentou-se nas duas cadeiras diante da secretária da agente. Vinham buscar o filho, que bebeu demasiado na noite anterior, nas festividades de Santo António, e acabou por se envolver numa briga para os lados do Castelo. Passou a noite na cadeia, e só à hora de almoço do dia seguinte superou o pavor de dar o número de telefone dos pais à polícia, para que o fossem lá resgatar.
Depois das formalidades, a agente Sónia Almeida fez sinal ao colega para que trouxesse para fora ‘o miúdo do Castelo’, que surgiu na sala passado um momento, sujo de sangue e lavado em lágrimas, mais de medo que de arrependimento.
A mãe abraçou-se a ele com fervor, e deu também vagão às lágrimas, enquanto o pai, que se manteve com ar de poucos amigos, fazia sinal a ambos para se despacharem, que já estava era cheio de fome, e que ia ter uma rica conversa com o jovem quando chegassem a casa.
Depois de saírem da esquadra para o sol escaldante, Sónia Almeida fez uma pausa de antes de chamar o próximo caso, que dedicou a arrumar o processo transacto e bebericar da lata de sumol d’ananás que tinha escondida debaixo da secretária, para aliviar um pouco o calor daquela sala.
Quando finalmente se decidiu a chamar o próximo, a velhinha levantou-se a custo, e dirigiu-se em passos lentos e sofridos até à cadeira em frente à secretária da agente, onde se sentou, com esforços redobrados.
Tratava-se, novamente, de um caso relacionado com o Santo Padroeiro de Lisboa. Ao que parece, durante as festividades, o filho da vizinha da frente achou que seria divertido urinar no patamar de entrada da idosa. Todos os anos era a mesma coisa, e a senhora já estava a ficar farta. Sabia exactamente de quem se tratava, e desta vez queria levar o caso avante, apresentando queixa.
A agente Sónia revirou os olhos. À velocidade a que a senhora expunha os acontecimentos, floreando cada detalhe insignificante com centenas de pormenores insípidos, aquele disparate era coisa para durar a tarde toda, o que no momento lhe pareceu absolutamente insuportável. Deste modo, convenceu a senhora a não apresentar queixa. Disse-lhe que ia ligar para casa do rapaz, falava com os pais dele e pregava-lhes um susto valente. Que não ia voltar a acontecer, e se acontecesse iam direitinho a casa do jovem, e prendiam-no por vandalismo.
A senhora, que a princípio vacilava, espevitou com este último pormenor. A perspectiva de um carro da polícia ir até ao bairro prender aquele diabrete à luz do dia, em frente a todos os vizinhos, era demasiado deliciosa para deixar escapar. Deste modo, acedeu relutantemente à sugestão da agente Sónia, e deu início ao penoso caminho de regresso a casa, abrindo uma sombrinha antiquíssima à saída da esquadra, para se ressalvar do sol lancinante.
Ao som já familiar de ‘seguinte’, Júlia Morais levantou-se e tomou o seu lugar diante da agente, mantendo-se em silêncio.
- “Então, o que a traz por aqui, menina…” - perguntou distraidamente a agente, enquanto organizava os papéis espalhados pela mesa, aproveitando para deitar ao lixo o papel com a morada e número de telefone do jovem urinador.
- “Júlia, Júlia Morais” – respondeu timidamente a jovem, que não podia ter mais de 26 anos de idade. – “Estou aqui para dar parte de uma ocorrência.”
- “Ah sim?” – replicou a polícia, com ar entediado – “e que ocorrência é essa?”
- “Matei um homem”.
Só nesse momento, ao ouvir palavras tão fortes serem pronunciadas numa voz tão delicada, é que Sónia Almeida se deu ao trabalho de levantar os olhos da secretária, para observar a interlocutora.
Tratava-se de uma rapariga nova, de estatura média e constituição delicada, com olhos e cabelos castanho escuros, que contrastavam fortemente com a sua tez pálida. As sobrancelhas finas e nariz arrebitado davam-lhe um ar quase infantil, e a boca pequena aparentava ser incapaz de produzir palavras, dada a sua dimensão.
Usava um vestido de Verão de corte clássico, com motivos florais de cores claras. Um olhar mais atento revelava que a indumentária, apesar de bem conservada, tinha já bastante uso, denunciado por borbotos finos nas dobras das axilas, e pelo facto de algumas flores serem mais coloridas que as restantes, denotando que estas não tinham cores claras, mas sim deslavadas. As sabrinas rasas, apesar de não combinarem perfeitamente, não destoavam do resto do conjunto.
No geral, era uma jovem bem parecida, e razoavelmente arranjada, não havendo nada nela que a destacasse de tantas outras que passavam à porta da esquadra, a caminho da faculdade que ficava no fim da rua.
Apercebendo-se do seu silêncio, a agente repetiu, desta vez num tom mais grave, quase solene, enquanto a mirava directamente nos olhos: “desculpe menina, pode repetir?”
Júlia acedeu: “Matei um homem”. Passados uns segundos, acrescentou – “e gostaria de dar caso da ocorrência”.
Apesar da seriedade da situação e do calor abrasador, a jovem não suava, não tremia, não hesitava. A sua voz, ainda que fina, quase inaudível, soava com uma firmeza cruel. Palavras que arranhavam os ouvidos de quem as escutava.
Embora soubesse no fundo da alma que não se tratava de brincadeira alguma, a agente Sónia sentiu-se na obrigação de perguntar novamente – “Está a falar a sério?”.
- “Matei um homem” – respondeu Júlia, sem notar que era a terceira vez que se repetia.
- “Espere aqui. Vou chamar o inspector”.
Ergueu-se da cadeira, e dirigiu-se lentamente para o interior da esquadra, sem nunca olhar para trás. Nem lhe tinha ocorrido a possibilidade da jovem, alegadamente homicida, abandonar da esquadra quando se visse a sós.

Leila Tehrani

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