12 de abril de 2007

Como parecer um cinéfilo intelectual irritante sem fazer qualquer esforço?

Óptimo para impressionar em festas, entrevistas, idas à cinemateca, estreias de filmes portugueses engates no Lux e quando encontramos aqueles amigos chatíssimos acham que sabem mais do que nós...


1) "O cinema morreu"
Comece por declarar que o cinema morreu!
Ninguém (nem mesmo você) irá compreender o verdadeiro vazio deste conceito. No entanto, pode apostar: ninguém vai querer correr o risco de lhe perguntar porquê e sair intelectualmente humilhado.

2) "Os americanos"
Fale mal dos americanos. Diga que os filmes deles são todos iguais (com excepção do Lynch) e que querem matar o cinema europeu. Diga também que os portugueses não vêem Cinema Português porque os americanos não deixam. Refira que o pior filme do Godard vale mais que o melhor do Spilberg. Fale num tom blasé, como se já defendesse tudo isto desde o dia em que nasceu.

3) Fumar
Enrole você mesmo os seus cigarros. Nove em cada dez pessoas que verdadeiramente percebem de Cinema partilham este ritual. Fume desesperadamente. Aquilo que lá põe é irrelevante. No futuro, quando a sua imagem estiver consolidada, dê o passo seguinte e evolua para um cachimbo.

4) Os portugueses
Pense nos realizadores portugueses como se eles fossem vinho. Diga coisas do tipo "o Botelho deste ano está excelente!". E nunca os trate pelo nome completo. Finja intimidade dizendo coisas como "não compreendi a Teresa [Villaverde]" ou "não aguento esperar mais pelo próximo filme do Quim [Leitão]".
Pense no cinema português como uma medida de tempo: "encontrei o Paulo [Branco] em Cannes três Oliveiras atrás".

5) Citações
Cite sempre alguém! A citação confere uma grande autoridade àquilo que diz. Mas cuidado: não cite ninguém óbvio como o Hitchcock ou o Welles. Escolha alguém mais sofisticado... como o Nicholas Ray, ou o Renoir. Se a receptividade da sala for boa, arrisque-se e cite Schopenhauer ou Kierkgaard. Não importa que eles nunca tenham dito o que você disse que eles disseram.
Não seja literal: cite vagamente como se todos já soubessem (ou devessem saber) mais ou menos do que fala. Os que não souberem (todos) vão ficar demasiado envergonhados para levantar ondas.

6) Linguagem
Tenha cuidado com a sua linguagem! Não diga que a cena é gira. Diga antes que "tem imensa força". Não diga que o realizador X é fixe; diga que ele "filma bem". Não diga que o filme é chato. Diga que "tem momentos bons". não diga que no filme não se passa nada, diga que deixa "bastante espaço para a emoção". Não diga que o filme é mau. Diga que é um "filme falhado".

7) Cara-a-Cara
Cuidado! De tempos a tempos, um verdadeiro cinéfilo irá desafiá-lo. Observe-o bem. Provavelmente ele é um poseur como você. Pergunte qual destes filmes do Murnau é melhor e porquê: "Metrópolis" ou "M". Ele vai pensar um bocado e escolher um dos dois ao acaso. Atire-lhe à cara o facto de estes filmes não serem do Murnau, mas sim do Lang, e saia vitorioso. Se ele descobrir a armadilha e revelar-se um verdadeiro cinéfilo, peça desculpa e lamente o facto de ainda estar demasiado traumatizado depois do último filme de Spielberg. Ele sentirá pena de si e irá confessar que adorou. Bingo! Explore esta fraqueza!

Adaptado de Paulo Leite in Primeiras Imagens, Agosto de 2003

4 comentários:

Anónimo disse...

Cinema é comigo mas por acaso, este artigo é duma revista de cinema portuguesa concorrente da premiere que eventualmente acabou por falir. E de facto este artigo é de uma das edições lol nem precisei de ir consultar ou remexer o pó da colecção loooool.
beijinhos

Eduardo

olivia disse...

vê-se logo que eu percebo imenso de cinema!... já estou quase a passar para o cachimbo!! ;)

Edu, já ias tb ao meu blog!!:P

bem resgatado, leila,
mil beijos,
c

Anónimo disse...

NOSFERATU AO PODER!!!e assim murnau vence!

the wolf is back

L. disse...

comments!
yes!

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